Volta ao lar

Submitted by gfraenkel on Wed, 18/04/2018 - 09:06

Volta ao lar
(18/04/2018)

 

Ontem decidi olhar para o alto com o olhar da incerteza; desprovido dos conceitos dos bancos da escola, livre do religioso que vê a Deus em tudo e do cientista que tudo calcula confabulando classificações taxonômicas.

Deitado sobre o asfalto úmido, duro e frio do grande aglomerado humano que segue com sua existência circunscrita pela princesinha do mar, pela avenida que tem nome de pais e pela pedra esculpida de braços abertos que cobiça o pão de açúcar que nunca há de comer, cercado por homens que tem os focos luminosos do alto por teto.

Em alguma avenida próxima roncos famintos clamavam de fome, talvez de tempo, decretando aspirações incomuns de liberdade. O cachorro latia longe reagindo aos vorazes roncos que talvez parecessem ameaçadores.

Uma brisa soprava provocando arrepios e contraindo músculos de quem não conseguia se entregar ao cansaço de um dia de definições concretas e julgamentos contundentes.

Presos a discursos religiosos e classificações taxonômicas que não compreendem, crianças em idade adulta escondem-se sob armações de terra, pedra e aço para conciliar o presente e o futuro fugindo do passado.

O toldo azul marinho salpicado de branco pareceu-me tão conhecido e próximo que eu seria capaz de tocá-lo com as pontas dos dedos se desejasse. Mas o receio de conspurcar tamanha beleza me detinha. Qual criança contida, temi significar meu entorno e busquei os dicionários e livros sagrados.

Nada encontrei e decidi arriscar. Não havia ninguém olhando. Quem sabe...

Mergulhei para cima no frescor das indefinições fartando-me da doçura dos brancos cristais brilhantes que eu jurava serem diamantes. Cobicei o algodão doce displicentemente deixado no oceano que me cobria e que sempre esteve a meu alcance.

Por algum tempo me deixei levar por estranha correnteza cujos reflexos são as brisas frescas que sopram sobre o terreno concreto.

Eu estava do outro lado do conhecido reescrevendo dicionários e refazendo cálculos enquanto sentia a vida pulsar em um coração externo a mim. O sangue que passava através de mim era um hino doce e colorido indescritível para os religiosos que se nutria de meus sonhos, incertezas e dúvidas.

As equações e os escritos bíblicos pareceram rascunhos imperfeitos, ensaios de uma realidade que tentamos alcançar.

Senti-me imbuído da autoridade de mim mesmo e enquanto meu corpo jazia abaixo de tudo aquilo que carecia de definição eu segui livre de sentido sentindo a felicidade de escrever a mim mesmo com tantas cores, sons e texturas que a cognição não é capaz de dar conta.

Via-me como uma expressão possível, um ensaio de algo muito maior e mais significativo quando despertei com os olhos inundados pelo oceano de indefinições libertadoras.

Custei a levantar para sentir o chão onde perco a vista do toldo azul açucarado em que posso me definir como quiser e seguir em frente soprando sobre a realidade taxonômica e calculada que não dá conta de definir o que foge ao concreto.

 

(Guilherme Fraenkel)

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