Coautoria e esperança

Submitted by gfraenkel on Tue, 27/03/2018 - 11:19

Somos coautores de uma história que será um grande sucesso, mas que guarda incontáveis capítulos, por vezes dramáticas e tristes, de erros e de dores.

Desafios e superações, ignorâncias e aprendizados, contradições e harmonias! Dipolos propulsores de nossos potenciais que preenchem as linhas da vida com vivências pintadas em tons energéticos que nos levam através de uma espiral ascendente que tem ponto intuitivamente definido no horizonte, onde as pequenas coisas se perdem, o amor impera e a plenitude preenche nossas almas.

Obras primas, inovações e revoluções nascem a todo instante, produtos deste processo que atravessa a vida coletiva enquanto define a vida individual de seus autores aquiescendo de forma mais ou menos ampla com o Universo vivo que está em movimento instigando a tudo com seu provocativo movimento silencioso de harmonia divina.

Instados à categoria de seres conscientes de si mesmos, sofremos com a miopia que nos impede de ver o infinito enquanto supervalorizamos os micro detalhes à nossa volta. Um valioso exercício que nos capacita a compreender os mecanismos de funcionamento do Universo com os quais nos integramos de forma inequívoca.

Tomando por verdades absolutas os pontos de vista possíveis, a tudo interpretamos gerando significados e verdades viáveis para guiar nossas jornadas através da falsa impressão de centralidade, construção egocêntrica que nos impele para conquistar as periferias onde acabamos descobrindo outros centros, desfazendo as impressões parciais iniciais em favor de uma realidade onde não há centro, não há origem, não há início e nem fim.

Aos poucos descobrimos autores distintos, reconhecemos a propriedade de suas obras e nos locupletamos através das linhas alheias que transforma as nossas próprias legando-as a planos menos centrais, mas de grande importância.

Visões se fundem, construções conjuntas ganham volume e aos poucos o papel da autoria perde importância diante dos resultados coletivos que são conquistados. Forjamo-nos coautores integrantes de algo maior que possui fronteiras definidas apenas para circunscrever o Universo até onde conseguimos alcançar.

A meta? Conquistar o inalcançável. Atravessar as fronteiras individuais e coletivas onde a visão sai de foco e as linhas tendem à convergência. Compreender o essencial.

Aos poucos o burburinho incompreensível das forças que regem o Universo se revela aos nossos ouvidos amadurecidos como melodiosa harmonia acolhedora que atrai para a periferia fazendo-nos percorrer campos dispersando energia sob a forma de construções estéticas de indizível beleza e inquestionável valor que tiveram por origem obras agora grosseiras, mas que um dia também foram consideradas o primor do potencial individual e coletivo.

Sendo herdeiros de nós mesmos, escritores do Universo, olhemos com gratidão e esperança para nossa própria história reconhecendo que é o melhor que temos sido capazes de realizar até agora, embora os ruídos do infinito nos afirmem não ser o suficiente simplesmente porque podemos muito mais.

(Guilherme Fraenkel e amigos)

-----
Escrito como respostas aos discursos duros que elegem a própria população como culpada das cenas de comoção social geradas pelos tiroteios na comunidade da Rocinha em 24/03

Culpados ou coautores?

Hoje vivemos sob a impressão de que a vida está ruim, mas nossa história nos diz que já construímos cenas piores. Por que não nos apaziguamos com nossos potenciais para agirmos sobre nossas próprias construções buscando melhorá-las?

Que movimento de repúdio é este em que apontamos o outro como culpado? Estaríamos nos culpando e buscando castigo?

E se este for o melhor que conseguimos fazer até agora?

Talvez precisemos nos unir e buscar outras formas de pensar a sociedade

Share Everywhere